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As marcas da escrita

  • Foto do escritor: Mariana Sávio
    Mariana Sávio
  • 25 de jun. de 2025
  • 3 min de leitura

Havia um caderno azul na mesa de mogno. Um caderno encadernado em couro, suas páginas ligeiramente amareladas pelo tempo, como se o próprio ar da manhã tivesse soprado sua poeira dourada entre as folhas. A tinta, agora desbotada, revelava hesitações, palavras riscadas, frases que começavam e se perdiam, como a espuma do mar ao tocar a areia. Era um caderno de anotações de minha avó, mas poderia ser de qualquer um, de qualquer mulher que, entre os intervalos da casa e do tempo, tentasse capturar um pensamento antes que ele desaparecesse na névoa do cotidiano.

Quando o folheei pela primeira vez, era uma tarde de vento. O tempo, sempre tão caprichoso, inclinava as sombras do jardim sobre a mesa, fazendo com que as letras oscilassem, como se estivessem vivas, respirando. “Escrever é lembrar?”, perguntava a anotação na borda de uma página, a caligrafia inclinada para a direita, como se a própria mão tivesse pressa de seguir adiante. Mas recordar o quê?

Penso que a escrita é como a maré. Vem em ondas, trazendo consigo fragmentos dispersos—conchas quebradas, pedaços de vidro polido pelo sal, restos de histórias que um dia foram inteiras. Às vezes, o fluxo é generoso e as palavras correm livres, estendem-se, moldam-se em frases que se encaixam como pedras antigas em uma ruína. Outras vezes, porém, a maré recua. O vazio se instala. O silêncio ecoa entre os dedos, e nenhuma palavra parece justa, nenhuma frase suficientemente verdadeira.

Minha avó, creio, também conhecia essas marés. Seu caderno não era diário, nem romance inacabado. Era algo entre um e outro, um território limítrofe entre o pensamento e a escrita, entre o vivido e o imaginado. Havia listas de compras ao lado de versos interrompidos, receitas rabiscadas na contracapa, um endereço de alguém que nunca soube quem foi. E havia, sobretudo, fragmentos:

“Se ao menos pudesse contar a história daquelas tardes, mas as palavras fogem antes que eu possa segurá-las.”

Fiquei pensando: quantas histórias foram escritas e esquecidas antes mesmo de serem ditas? Quantas palavras dançaram na mente de minha avó enquanto ela lavava as xícaras de chá, enquanto costurava um remendo na camisa do meu avô, enquanto olhava pela janela e via o vento torcer os galhos da ameixeira?

Escrever é capturar o que se perde. Não há nada de sólido na linguagem—ela escapa, escorre entre os dedos como areia fina. E, no entanto, tentamos. Anotamos nomes, desenhamos letras, riscando um caminho que talvez nos leve a algum lugar, talvez a nenhum. Minha avó escrevia entre os intervalos do dia, no espaço que sobrava entre um compromisso e outro, e eu a vejo agora, dobrando um pedaço de papel, guardando-o entre as páginas do caderno, como quem protege um segredo.

As mulheres sempre escreveram assim. Não nos longos corredores das bibliotecas, onde os homens tecem tratados sobre a eternidade, mas nos intervalos entre o leite fervendo no fogão e as crianças que choram no quarto ao lado. Escrevem entre um chamado e outro, escrevem nos cantos da casa, como se estivessem furtando do tempo o direito de existir sobre o papel.

E o que se escreve nesses momentos? Pequenos rastros, frases que pairam no ar como poeira iluminada pelo sol. “Se ao menos pudesse contar a história daquelas tardes…” Ela não contou. Mas deixou a frase ali, esperando.

Talvez seja isso que fazemos quando escrevemos. Não tentamos capturar o tempo, pois ele sempre escapa. Mas deixamos vestígios, pegadas sobre a areia molhada antes que a próxima onda as apague.

Agora fecho o caderno. A mesa de mogno, polida pelo tempo, reflete o brilho fosco do entardecer. As folhas das árvores balançam lá fora, e a luz passa por entre os galhos, projetando sombras nas paredes. Minha avó nunca publicou um livro, mas, de certo modo, ela escreveu.

E isso, talvez, seja o suficiente.

 
 
 

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