Como seria ser analista e mãe?
- Mariana Sávio

- 25 de jun. de 2025
- 2 min de leitura
Como seria ser analista e mãe? No início, parecia um paradoxo. Ser analista exige o saber não-todo, o silêncio que sustenta o dizer do outro. Ser mãe, por outro lado, muitas vezes é lidar com demandas incessantes, perguntas sem fim e uma presença quase constante.
Confesso que, durante um tempo, me questionei: como vou sustentar o lugar de analista enquanto sou convocada, a todo esse movimento que ser mãe convoca?
É que o ser mãe também implica em atravessamentos, em falta, em um “não sei” que muitas vezes me toma. Afinal, há dias em que a única coisa que escuto é um “mãããe” que ecoa pela casa como uma pulsação infinita.
Mas foi nesse estranhamento que algo se abriu. Percebi que, assim como na clínica, a maternidade também é atravessada pelo desejo — não pelo desejo de ser “A Mãe” ideal, mas pelo desejo de ser uma mãe possível. E isso é, talvez, o mais lacaniano da experiência: sustentar que não há completude nem no consultório, nem no colo.
Na prática clínica, aprendi a escutar o que falta no discurso, o que escapa, o que insiste. Em casa, como mãe, fui aprendendo a escutar o que meus filhos não dizem, a pausa entre o choro e o pedido, o silêncio de quem também é atravessado por enigmas.
“Mas dá para ser analista lacaniana e mãe, não seria melhor uma pausa?”, me perguntaram. E a resposta que encontrei é: dá, mas não sem rachaduras, sem lacunas. Porque tem dias que me sinto descentrada, deslocada entre dois lugares que me demandam tanto. E, como Lacan nos ensina, é justamente nessas rachaduras que algo pode surgir.
Ser mãe me ensinou que, no encontro com o outro, nem sempre há palavra para tudo. E ser uma analista lacaniana me ensinou que não preciso ser uma mãe perfeita, mas uma mãe desejante. Porque o desejo é o que sustenta a falta, o que permite que o filho também se constitua como sujeito.
Então sigo assim: entre as palavras que escuto no consultório e as palavras que meu filho cria para me convocar. Entre a escuta analítica e o gesto materno. Descobrindo, dia após dia, que ser analista e mãe não é encontrar um equilíbrio perfeito, mas sustentar o movimento, a falta, o desejo.

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