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Negro (in)visível na psicanálise

  • Foto do escritor: Mariana Sávio
    Mariana Sávio
  • 25 de jun. de 2025
  • 4 min de leitura

O corpo negro sempre foi marcado, por uma inscrição forçada. É um corpo que, desde a colonização, foi arrancado de sua história e lançado no campo do Outro como objeto a ser possuído, disciplinado ou eliminado. O extermínio do povo negro não se dá apenas pelas armas, pela violência estatal, pelas balas que atravessam corpos nas favelas, nas estruturas que definem quem importa, quem é ouvido, quem pode existir com dignidade. Ele também opera de forma mais silenciosa, mas igualmente brutal, nas estruturas simbólicas que sustentam a vida social.

Esse extermínio simbólico pode ser observado nas instituições de saber, entre elas, as escolas de psicanálise. A lógica da exclusão se repete: corpos negros são escassos ou ausentes nas formações, nos lugares de fala, nas mesas de conferência, nos comitês editoriais, nas cadeiras de poder. Quando estão, muitas vezes são tolerados desde que silenciem sua diferença ou a transformem em performance assimilável e limitados a falar sobre sua negritude. Trata-se de uma forma de apagamento. Não é que não existam psicanalistas negros, mas que não são legitimados como tal. Seu saber é posto à prova, sua escuta é duvidada, sua presença é tida como exceção ou ameaça.

O que sustenta essa exclusão não é o acaso nem a suposta falta de qualificação, mas o pacto narcísico da branquitude, como já disse Cida Bento. Uma aliança tácita e persistente entre sujeitos brancos que, mesmo diante da possibilidade concreta de incluir profissionais negros, optam por mantê-los à margem, pois caso fosse ocontrário teriam de abrir mão de suas posições de destaque e previlégio. Esse pacto opera de forma perversa. Em vez de ampliar o campo simbólico da psicanálise, ele o restringe, mantendo os mesmos corpos brancos em evidência, ocupando os espaços de saber, prestígio e transmissão. O Outro da psicanálise, nesse cenário, se mostra também como o Outro racializado que barra, cala e exclui.

Se o sujeito, para Lacan, é efeito da linguagem, se surge na relação com o significante a partir do campo do Outro, o que acontece com aquele que é sistematicamente barrado nesse campo? Como se constitui um sujeito negro quando o Outro, estruturado pela branquitude, recusa seu significante, desautoriza sua fala, cala sua experiência? Quando um analista negro toma a palavra, quando se posiciona, quando tenta ocupar um lugar de transmissão, muitas vezes o que se escuta não é sua fala, mas a interferência de um ruído que já estava ali: o ruído do racismo que molda o inconsciente social. Sua presença não passa despercebida, mas não porque ela tenha força, e sim porque incomoda. Porque desafia a ordem que muitos querem manter intacta. Nesse jogo, o sujeito negro não é apenas silenciado. Ele é recusado como sujeito. A linguagem que o constitui não encontra ressonância. E o que não encontra lugar no simbólico retorna como resto, como excesso, como aquilo que insiste em não ser acolhido.

O extermínio do corpo negro também se dá quando se nega a esse corpo o direito de existir como sujeito. Não porque nele falte um inconsciente, mas porque há, nas estruturas que sustentam as instituições, um recalque persistente que impede sua inscrição plena no campo do saber e do desejo. É como se o sujeito negro fosse mantido sempre do lado de fora, numa zona onde não é reconhecido como legítimo, onde sua presença é tolerada apenas quando não ameaça a ordem vigente. A construção histórica que o posiciona como um não ser, como alguém cuja existência só ganha sentido na medida em que reafirma a centralidade do sujeito branco, segue operando de forma sutil, mas brutal. Nas escolas de psicanálise, essa lógica se atualiza não apenas quando se silencia diante da exclusão de psicanalistas negros, quando se naturaliza sua ausência ou se falha em escutá-los com o mesmo valor, mas também e de forma ainda mais perversa, quando se instrumentaliza a pauta racial sem implicação real na luta. Falar sobre racismo se tornou, em muitos espaços, um discurso conveniente, uma forma de se alinhar ao politicamente correto, de performar consciência crítica sem romper com os privilégios que sustentam a desigualdade. O discurso antirracista vira moeda simbólica, circula sem risco, e, ao final, pouco muda. Psicanalistas negros continuam à margem, enquanto o campo se exime de rever suas práticas e estruturas.

Os psicanalistas, quando não se dão conta disso, quando não se interrogam sobre o lugar que ocupam nessa engrenagem, correm o risco de repetir o mesmo gesto excludente que tantas vezes disseram combater.

Afirmar a presença de analistas negros na psicanálise não é apenas uma questão de representatividade. É um gesto ético. É operar no simbólico. É romper com a cena em que o Outro branco é o único autorizador do desejo de saber. É sustentar a escuta do que historicamente foi calado, do que foi deixado de lado, do que não encontrou lugar. É abrir espaço para que a psicanálise seja atravessada por outras experiências, outras marcas, outros saberes. É recolocar a psicanálise em seu campo mais ético: o de ouvir o que insiste como resto, como suplício, como furo no discurso dominante. Porque se há algo que a prática analítica nos ensina, é que o sujeito se forma no entre, no furo, naquilo que não se encaixa.

A psicanálise não pode mais se manter surda ao que o corpo negro denuncia. Escutar o que o corpo negro tem a dizer, não só nos divãs, mas nas salas de aula, nos textos, nas formações, é reconhecer que há algo que falta e que precisa ser enfrentado. Onde há foraclusão, há retorno no real. E o real do racismo, quando não é simbolizado, retorna com força, dor e silêncio. Escutá-lo é urgente. É uma tarefa política, ética e clínica que convoca cada psicanalista a sair da zona de conforto, a transformar o próprio campo e a abrir espaço para outras vozes, outras histórias e outras existências. Lacan foi um pensador subversivo que desafiou os fundamentos do seu tempo. Uma psicanálise que não se implica nas questões reais do presente, que não enfrenta as opressões e exclusões do seu tempo, não pode ser chamada de lacaniana. Só assim a psicanálise poderá cumprir verdadeiramente seu compromisso de escuta radical e acolhimento do sujeito em sua singularidade, rompendo com os silenciamentos que ainda persistem.

 
 
 

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