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O Que Foge à Palavra.

  • Foto do escritor: Mariana Sávio
    Mariana Sávio
  • 25 de jun. de 2025
  • 3 min de leitura

“Há escritores para quem a palavra não é apenas sinal, mas matéria viva. (…)Escreve-se a partir de resíduos, de furos a se contornarem na linguagem, porque onde a palavra falta, escreve-se. Onde a linguagem é posta em xeque, onde a fala é choque e desvanecimento, letras irredutíveis se cristalizam. Curam-se Impulsionam o desejo da escrita. Acurando-se da escrita, p.29 -

Há algum tempo venho pensando no que significa deixar um texto nascer. Duas frases me atravessaram nos últimos dias e, de alguma forma, carregam algo que eu ainda não disse. Quando conversamos, pedaços do nosso inconsciente escapam, se perdem no ar, e nem sempre conseguimos juntá-los. Mas, e quando é a escrita que se torna esse caminho para alcançar o que não se encontra na fala? Escrever vem desse lugar de falta, do que sobra e não encontra saída. É um movimento íntimo, quase visceral. A palavra escrita surge no espaço onde a fala falha, onde a linguagem se quebra e revela o que não foi dito, mas que insiste em existir. Cada silêncio, cada vazio é um convite, e a escrita se aproxima devagar, contornando o que a fala não alcança.

Quando a linguagem vacila, há um desejo profundo de se manifestar. Escrever é tentar agarrar o que escapa, dar corpo ao que nos foge. Quando a fala desmorona, quando a voz chega ao seu limite, a escrita se torna uma necessidade. Não é escolha, é impulso. Escrever não cura no sentido convencional, mas transforma. A cura, aqui, é uma metamorfose: o que não pode ser aqui encontra outra forma de viver, nas palavras que ganham vida.

Não é o momento exato em que a palavra falha que a escrita acontece. Ela cristaliza o que é irredutível, o que não pode ser sufocado. A dor, o desejo, o que vive no fundo — tudo o que a fala não comporta, a escrita tenta abraçar, mesmo que nunca por completo. É sempre uma tentativa, sempre uma busca por algo que se esquiva.

Talvez seja esse vazio, essa falta, o que realmente dá vida à escrita. Porque é de lá que o desejo surge, não o desejo de dizer tudo ou de preencher cada espaço, mas de se encontrar no que escapa, de se perder nos silêncios e se reencontrar nas palavras. Escrever é dar forma ao que não tem forma, é dialogar com o silêncio e, ao mesmo tempo, ouvir o que ele tem a nos dizer.

A escrita não é suficiente para resolver, mas para explorar os contornos do que não tem resposta. É como se fosse a ausência que movesse o ato de criar. Cada palavra é uma tentativa de alcançar o que está além, de trazer para a linguagem aquilo que resiste, aquilo que não pode ser capturado. E nesse processo, eu também me transformo. Porque, ao escrever, não falo só do mundo, mas de mim mesma, do que em mim ainda não encontrou voz, do que se cala e, no entanto, pulsa.

Será que escrevo para me entender, ou a escrita me leva para um lugar onde o entendimento não é mais o objetivo, mas o próprio caminho? Talvez o ato de escrever seja uma busca infinita, por algo que nunca se completa, mas que, em sua incompletude, me convida a continuar. Porque, no fundo, não é sobre preencher o vazio, mas aprender a viver dentro dele.

Escrever é curar-se das lacunas, é habitar o espaço entre o que estava aqui e o que não poderia ser aqui. É uma cura que não elimina a falta, mas a acolhe, faz parte do processo. Escrever é viver o desejo sem resposta e, ainda assim, seguir escrevendo, como quem respira para não se perder. Talvez a verdadeira questão seja se escrevemos para preencher o vazio ou se é o vazio que nos chama, que nos convida a seguir.

 
 
 

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