Reparação ou retórica? Vagas afirmativas e uma promessa de inclusão.
- Mariana Sávio

- 25 de jun. de 2025
- 4 min de leitura
Essa semana, tivemos um debate intenso na Thopos. Estamos lendo textos da Grada Kilomba, e em um dado momento começamos a discutir o papel do analista frente às questões raciais e, mais especificamente, sobre bolsas, cotas, vagas afirmativas e afins e como isso reflete o racismo institucional. Recentemente, chegou até mim um anúncio de um curso de psicanálise de um tema específico em uma instituição conhecida que oferecia bolsas para pessoas pretas e indígenas. Fui dar uma olhada e, para surpresa de ninguém, no formulário havia uma solicitação de envio de comprovante de condição social. Pois é, isso mesmo que você leu.
Já faz algum tempo que venho refletindo sobre essas iniciativas e o real propósito delas em certos espaços. Muitos defendem que essa é uma forma de reparação histórica. Mas reparação para quem, exatamente? Esse tipo de medida parece partir de um pressuposto que associa diretamente ser negro a ser pobre, como se, para ter direito a uma política reparatória, a pessoa negra precisasse comprovar que não tem condições de pagar. E, com isso, fica a questão: o que se busca reparar, afinal? Será que estamos reduzindo a questão racial a uma questão apenas de classe? Ou estamos vendo a reparação como uma benevolência da branquidade?
Claro, sabemos que a maioria da população pobre no Brasil é negra — isso é inegável e está amplamente documentado. Mas, quando falamos em reparação, devemos focar apenas na população negra pobre? Reparação, nesse sentido, não deveria abarcar também a luta pelo reconhecimento e pela valorização das experiências e das vidas negras em sua multiplicidade, independentemente de sua condição econômica?
E mais: o que significa exigir essa comprovação? No fundo, essa prática reforça uma visão estigmatizante, associando a pessoa negra exclusivamente à carência material, como se a subjetividade negra se restringisse à pobreza. Além disso, o que essa exigência comunica às pessoas negras que conseguiram, por mérito próprio ou com algum suporte familiar, alcançar uma estabilidade financeira? Que elas não têm direito a essa reparação histórica, mesmo que o racismo continue a atravessar suas vidas em todas as esferas? E quando foi que passamos a acreditar que vaga afirmativa se tornou reparação histórica?
Nesse contexto, é essencial refletir sobre a postura das instituições psicanalíticas. A psicanálise tem como base a compreensão do inconsciente estruturado como linguagem, o que implica que toda subjetividade é atravessada pelo simbólico, pelo discurso e pelos significantes que carregamos. O qual impacto de tal feito nas subjetividade de pessoas negras? Não podemos ignorar como ainda hoje grande parte das instituições e escolas de psicanalise são propiciadoras de silenciamento, invisibilidade e, muitas vezes, estigmatizam as experiências de pessoas negras e indígenas. Me questiono sobre o que tais locais estão visando. Será que, em vez de promover uma reparação efetiva, essas instituições estão mais preocupadas em manter uma imagem de “responsabilidade social”? Um verniz de inclusão que, na realidade, evita questionar suas próprias estruturas e limita o alcance de uma verdadeira reflexão sobre o racismo institucional e suas consequências?
Como psicanalistas lacanianos, trabalhamos com o discurso, atentos aos significantes que atravessam o sujeito e aos sentidos que sua fala carrega. Por isso, se faz necessário refletir sobre as implicações desse tipo de discurso assistencialista e reducionista. Que mensagem estamos transmitindo ao vincular o “merecimento” de um espaço de formação à comprovação de uma condição social desfavorecida? Parece haver uma continuidade de um discurso que fixa a pessoa negra numa posição de vulnerabilidade, perpetuando estigmas e limitando sua subjetividade a um contexto de necessidade e dependência.
A psicanálise, ao longo de sua história, foi se mantendo e ainda é em grande parte um espaço elitista e eurocêntrico, que se tornou distante de grande parte da população negra, seja por não dar voz a estes e seus saberes ou por mante-los a margem. E, ainda hoje, muitas dessas instituições seguem resistindo em rever seus próprios preconceitos e privilégios. Falar em reparação no âmbito da psicanálise exige mais do que um programa de bolsas/ vagas afirmativas com critérios limitadores; exige que as instituições revisitem suas práticas e estejam dispostas a reestruturar o campo de forma a incluir, de verdade, os saberes, as vivências e os corpos racializados, sem impor exigências que reduzem essas subjetividades a condições financeiras, pois isso é manter a segregação.
Então, pergunto novamente: quando falamos em reparação, estamos reparando para quem e o quê? A reparação não deveria ser algo mais amplo, um esforço de valorização e inclusão das experiências negras na sociedade e na própria psicanálise? Será que essas iniciativas, da maneira como são desenhadas, de fato reparam? Ou apenas perpetuam a exclusão e a estigmatização da pessoa negra, limitada à condição de “beneficiário carente”? Para avançar, é fundamental que a psicanálise reconheça suas próprias limitações e promova mudanças reais, que vão além de uma abordagem assistencialista e se comprometam com uma verdadeira transformação estrutural e discursiva.
Como psicanalistas, temos um compromisso ético de pensar o discurso como formador de subjetividades e, portanto, devemos estar atentos às implicações de cada palavra, de cada exigência, de cada política. A reparação, para ser efetiva, precisa abrir espaço para que a população negra ocupe todos os lugares que lhe são de direito, não por caridade, mas por justiça histórica e pelo reconhecimento de sua plena dignidade e valor como sujeito, independentemente de sua condição econômica.

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